Léo ao Léu entrevista: Zé Wong que foge de casa e me abraça no trem

Conheci o Zé numa madrugada de outono, na frente do Destination, a maior boate gay de Pequim. Ele vestia um boné da NASA e parecia um treinador pokémon. Carregava uma bolsa pra câmera e uma mochila nas costas. Magro, tinha acabado de sair do clube e falava pouco.

Conversamos sobre Pequim. Capital e tal. Na verdade, ele veio de Xi’an naquele final de semana pra visitar amigos. Que bom que nos encontramos. Senti que ele era um lugar diferente nessa estação. Ele me disse mais tarde que quase detestaria outonos se não pudesse andar caminhando por aí. Pensando nos graus negativos que estão prestes a rolar nas semanas que vêm (agora é inverno), a madrugada-Zé tava muito agradável. Decidimos andar pelo bairro enquanto a estação de trem não abria.

Sanlitun é a vizinhança da vida noturna chique por aqui. Alguns prédios muito luxuosos me fariam ter vergonha das roupas que eu visto se eu não tivesse um orgulho-pobre-brazuca. Chinesinhas hipermaquiadas compram de carrinhos de comida na calçada. Jovens de várias nacionalidades conversam no celular, bebem. Enquanto andávamos por essas ruas, um homem se aproximou de mim perguntando se eu era americano, se eu queria ensinar inglês. Falei que eu não era aquele lugar, não naquela madrugada.

O lugar que eu era tinha curiosidade. Descobri que o Zé tira fotos e escreve. Ama a dinastia Tang e estudar arquitetura por hobby. Não sabe nada sobre o Brasil. Foi diagnosticado com bipolaridade há um tempo. Quer trabalhar com jogos. Espero poder rever – ofereço. Sim – ele também. E se eu fizesse uma entrevista com você? 

Por que não? A estação de trem abria agora. E eu não podia esperar pra ouvir mais sobre essa pessoa-outro que talvez treinasse mesmo pokémons e tivesse experiências siderais. Foi assim que essa entrevista aconteceu. Gravei com o celular.


Léo ao Léu: Quantos anos você tem e o que você faz agora?
Zé Wong: Tenho 20 anos e estudo Literatura. Não, língua chinesa e literatura.

L: Você gosta do que você estuda?
Z: Sim. Acho literatura interessante. Escrevo poemas faz uns 5 anos.

L: Você pensa em publicá-los?
Z: Não. É muito trabalho.

L: Posso postar um poema seu no meu blogue? Vou tentar traduzi-lo.
Z: Claro.

L: Como você soube que era gay?
Z: Quando eu tinha 13 anos.

L: O que aconteceu?
Z: Nada aconteceu. Eu só achava meus colegas atraentes.

L: Foi tão simples assim?
Z: Graças à internet.
Zé andando na estação de trem. O ângulo da foto não está bem enquadrado na figura do garoto e o foco está borrado.

L: O que você pesquisou na internet?
Z: Pornografia.

L: Mas na China a pornografia é proibida.
Z: Você pode usar torrents. Descobri eles em comunidades de mangás japoneses gays.

L: Então você gosta de cultura japonesa?
Z: Sim, pra além da pornografia. Gosto de Detective Conan e Gintama.

L: E como você se sentiu quando soube que era gay?
Z: Eu não me senti mal. Só senti que deveria ser um segredo.

L: Você pensou que não poderia ter família?
Z: Eu era muito jovem pra pensar sobre isso. Mas agora eu acho que não gosto do conceito de família. Eu gosto de estar sozinho. Nunca tive muitos amigos. Ainda não tenho. Me acostumei. Tá tudo bem.

L: Então você gosta de estar sozinho.
Z: Estar sozinho é uma forma de me proteger. Eu sempre gostei disso.

L: Proteger de quê?
Z: Eu não sei.

L: Se você fechar os seus olhos e pensar sobre essa proteção. Qual é o seu medo?
Z: (Silêncio.) Eu só me sinto confortável.

(Silêncio.)

Z: Eu gosto de fazer amizades agora. Tenho tentado procurar coisas diferentes.

L: Você me disse que gosta de viajar. Me conta sobre isso.
Z: Eu já fugi de casa pra viajar.

L: Pra onde você foi? Por quê? Como?
Z: Meu avó tinha morrido. Foi ano passado. Eu sabia que a minha mãe tava vindo pra Xi'an, por causa do funeral. Minha mãe é um gatilho pro meu transtorno. Eu fiquei com muito medo de encontrar ela. Então bem cedo de manhã eu peguei um trem a vapor.

[Na China tem dois tipos de trem, o a vapor e o trem-bala, que chega a 300km/h. Eles conectam muitas cidades e suas rotas servem tanto pra turismo quanto pra comércio.]

L: Pra onde?
Z: O trem era muito lento. Barulhento. Baguçado. Mas não levou muito pra Luoyang.

L: O que você fez quando chegou lá?
Z: Visitei ruas antigas. Luoyang é uma capital antiga. Não fui aos museus ou pra pontos turísticos. Eu só queria matar tempo no quarto do hotel. Eu só queria ir pra longe. Daí comprei passagens pra Nanquim. Tudo era uma aventura. Eu não sabia o que fazer. Mas gostei. Gosto de ficar vagando em ruas, ruas estranhas. Pensar na minha vida. E esse tipo de aventura aconteceu de novo. Alguns meses atrás.

L: Calma, você não terminou. Depois de Nanquim você foi pra onde?
Z: Xangai.

L: E lá você foi a um bar gay?
Z: Sim. Quase esqueci essa parte. Fui a um bar que se chama Lucas-alguma-coisa. Escrevi um poema lá.

L: E como era o bar?
Z: Não era barulhento como o Destination. Era mais quieto. Tinha um bar e uma pista de dança. Alguns estrangeiros. A maioria deles era bem atraente.

L: Você beijou algum deles?
Z: Acho que ninguém me achou lá. Eu só tava fazendo meus lances. Lendo meus livros e observando eles.

L: Você falou sobre os seus pais sobre essa viagem?
Z: Sim, claro. Falei que fiquei em pânico. Eu fui egoísta.

L: Por quê?
Z: Não posso me perdoar por isso.



L: Por quê? :(
Z: (Silêncio.)

L: Você não é egoísta.
(Silêncio.)

L: Quanto tempo durou toda a viagem?
Z: Fiquei alguns 3 dias em Nanquim e uns 5 dias em Xangai. A viagem pra Xangai foi bastante impressionante. A cidade foi impressionante.

L: Não se move, vou tirar umas fotos. Xangai é tipo Pequim?
Z: É mais tipo Pequim. É uma cidade enorme.

L: (Eu tirando fotos)
Z: Quando eu andei pela cidade, vendo pessoas diferentes, vindo de todos os lugares do mundo, não consegui evitar pensar no meu futuro. Acho que Xangai me deu uma chance pra pensar nas possibilidades da minha vida.

L: O que você pensou lá?
Z: Pensei que poderia me tornar uma boa pessoa.

L: Então Xangai salvou você?
Z: Sim, dá pra dizer isso. Mas não durou muito tempo. Eu fiz isso de novo mais tarde. Alguns meses mais tarde. Porque briguei com meu pai.

L: Você está fugindo de casa agora?
Z: Não. Na segunda vez que fugi de casa, fui pra Nanquim, Suzhou e depois Xangai.

L: Você sempre acaba em Xangai.
Z: Sim. Eu gosto de pensar em coisas em Xangai.

Z: As duas viagens foram muito parecidas. Não consigo dizer que memórias são de quais vezes. Uma coisa é certa: eu andei em dias chuvosos. Um monte. Sem guarda-chuva pra me proteger.

L: Você ficou gripado?
Z: Talvez. (Silêncio.) A terceira vez que eu fugi de casa foi diferente. Eu só fiquei em Xi'an, mas minha família pensou que eu estava em outra cidade.

L: (Eu tirando fotos.)
Z: No dia em que eu tentei suicidar, meus pais ligaram pra polícia.

L: Quando foi?
Z: Na terceira vez.

L: Onde você tava?
Z: Num hostel. Foi a primeira vez que eu fiquei num hostel. Eu fiquei em três hostels, não, quatro. Hostels diferentes pra que meus pais não me achassem.

L: Você quer falar sobre a sua tentativa de suicídio?
Z: Eu não lembro. A minha bipolaridade afeta a minha memória.

L: Ok.
Z: Falando sobre suicídio, esses tempos tomei todos os meus remédios. Quatro meses atrás.

(Silêncio.)

Z: Você já tentou se matar?

L: Eu já tentei me matar? Não. Acho que não. Eu planejei muitas vezes, mas nunca tentei. Você entende isso? Eu nunca cheguei a esse ponto. Sabe?
Z: Sim. Você acha que é preciso coragem pra se matar?

L: Sim, mas não quero encorajar você a fazer isso.
Z: Se matar não é heroísmo.

L: Não é heroísmo, não é horrível, é só uma coisa e as pessoas fazem. Eu tenho um plano, por exemplo. Quando eu tiver 60 anos, vou fazer uma grande festa, e chamar todo mundo que eu amo. E no fim da festa eu quero morrer.
Z: Suicídio?

L: Sim. Eu não quero viver por muito tempo. Não quero viver com dor. Se for muito difícil, eu não quero viver. Mas é algo que eu penso de vez em quando. Não sei. Talvez mude depois.
Z: Ser bipolar significa que eu vou lutar com pensamentos suicidas pelo resto da minha vida.


L: Como você foi diagnosticado?
Z: Na primeira vez, me disseram que era só depressão. Acabei tomando um remédio que piorou minha doença. Daí depois de um ano eu voltei pra escola. Não me sentia bem. Então eu vi uma garota na internet falando sobre o transtorno bipolar, ou depressão maníaca. Só pude pensar que era a doença que eu tava enfrentando. Fui no hospital de novo. Minha mãe não queria me levar lá. Ela pensou que eu só tava me fazendo. Eu não falei muita coisa pra médica. Ela me disse que tinha certeza sobre eu ser bipolar. Daí ela me deu remédios. Nesse dia era meu aniversário.

L: Que dia?
Z: 13 de março. Esse dia é também o dia mundial da bipolaridade. Foi esse ano.

L: O que você diria pras pessoas brasileiras bipolares que podem estar lendo isso?
Z: Você precisa esperar até as mudanças aparecerem.

L: Que mudanças?
Z: Qualquer mudança. Qualquer coisa que faça sua vida melhor.

L: É sobre paciência?
Z: Sim.

L: Tá bem, eu vou dizer pra eles.
Z: Adiciona que eu acho que bipolaridade não é uma doença. É um traço da minha personalidade. Preciso aprender a controlá-la.

L: Ok.

(Silêncio.)

L: Você vai me mandar essas fotos que eu tô tirando com a sua câmera?
Z: Talvez.

L: Como você se sente agora?
Z: Estou sentindo amor. Quero abraçar meus pais. E quero abraçar você também. Pode ser?

L: Sim.
Z: Eu conheci muita gente horrível nos aplicativos gays. Depois dos meus 18 anos, eu conversei com muita gente, pra me preencher. Muita gente lixo. Você não é assim.

Abraço,
Léo do Beleléu, da Universidade de Comunicação da China, numa tarde de começo de inverno.


Noite em desfoque


Zé Wong
Versão: Léo do Beleléu


O álcool desgostado já esquecido
A cavidade do corpo me abana tchau pela terceira vez
Estive frustrado, mas passei por cima
Do outro lado encontrei outro fantasma

Primeira vista
Choque
Uma linha de táxis
O meu lado escuro foge com pressa
Entrou no palácio da lua
Levando uma parte do meu coração ressuscitado

Se fosse um romance
Eu gostaria de rasgar o final
Pausar o teatro, com as luzes acesas
Conversa bebida sabor suave
Consegue ouvir?
Eu esqueceria que dia é hoje, e que eu deveria voltar pra casa
Se é  inverno, outono ou se é primavera ou verão

Cheiro doce de atrair jantar
Nas mesas, na frente delas
Você dorme
Estou brincando com a comida
Meu coração, ressuscitado, ainda dorme
Sonhando com o que pode acontecer

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Sobre o Autor

Gosta de línguas, reflexões introspectivas, UTAU/Vocaloid, discussões sobre gênero e sexualidade, do céu e de fazer da vida alheia um bordado de renda (de chita filó).